sábado, 27 de fevereiro de 2010

Show de rock termina assim, ó!


“Vou festejar como Rock Star”

A abertura do Grito Rock em BH foi de festa, loucura e polêmica

Por Pâmilla Villas Boas

A porta é convidativa. Fechada e com ares de esconderijo incita a chegar mais perto, descer as escadas que vão direto ao inferninho chamado A Obra. Eita inferno instigante é esse espaço alternativo quase invisível em meio aos bares da zona sul de Belo Horizonte. A chegada foi silenciosa, mas não durou muito. Foi só abrir a porta para ouvir o grito atordoante das guitarras. Não foi só das guitarras, deixo claro, violões, sax e o arredio contra baixo também tiveram sua vez no primeiro dia do Grito Rock BH. E claro, os DJs Malibu, Yuga e Ennevaldo tomaram as pistas para fazer julgo ao nome de A Obra Bar Dançante. E isso tudo com rock, samba, punk. Mas quem foi que disse que rock não é música de dançar?

Primeiro, foi a vez do violão. A banda Radiotape abriu a noite de quarta-feira e pôs o instrumento pra falar. A mudança que a banda sofreu com a saída de dois integrantes parece não ter abalado a apresentação. O baterista, Lucas Mortimer, ensaiou só uma vez, um dia antes da apresentação. Ele mostrou ter memória boa e quase não titubeou nas músicas. O motivo da separação parece ter sido o amor ao rock, a vontade de fazer o que gosta. Independentemente disso, o show foi ameno com melodias muito boas de ouvir. O público se rendeu à balada rock “Aposto em Você”.

Depois, foi a vez da polêmica incitada pela presença do sax, do visual e da sonoridade que alertava ao público, “isso não é rock”. Pela primeira vez, uma banda de samba, se apresenta no inferninho alternativo que se orgulha de ser o lugar do rock’n roll. Mas quem achou que o show da banda Capim Seco deixou a galera acuada, se enganou. Quanto mais a banda tocava, mais o lugar se enchia de gente. Os espaços vazios se transformaram em roda de samba. Sem dor na consciência, o pessoal se entregou ao ritmo brasileiro. De alguma forma o samba jazzístico quebrou a monotonia rítmica do rock. Mas mesmo a banda não se reconhece como banda de samba tradicional. Para Michele Andreazi, eles estavam tocando no lugar certo. “Esse público é muito mais aberto do que o pessoal da noite. Poder cantar o que a gente faz sem preconceito”, conta. Mas também Michelle relata que foi educada ouvindo bandas como The Doors e Janis Joplin. E rolou mesmo uma interação com o som das antigas, ela curtiu muito a Johnny Hooker & Candeias Rock City.

Para fechar a noite, nada melhor do que um rock clássico de abalar estruturas. Um retorno à insanidade, ao caos e à baderna dos shows da década de 70. Uma mistura de quebradeira a lá The Who com a sexualidade dionisíaca de Jim Morrison. E teve várias ironias também: “Vocês gostam de maconha? Candeias é uma cidade prostituída pela droga”, “hoje eu vou festejar como rock star”, “esse show é para quem não tem nada”. O gran finale não pode faltar, algo que eu nunca vi em shows independentes. Eles quebraram a bateria.

Os organizadores ficaram pasmos, não sabiam se curtiam a performance ou se saiam correndo buscar o que restou do instrumento. Nos bastidores a banda não é tão “maluca” assim. Falaram da importância dos coletivos e tinham muita consciência da proposta e do próprio som. “Somos uma mistura de Rolling Stones e David Bowie”, afirma o vocalista Johnny Hooker. Atualmente, eles estão em turnê em Minas e vão fazer sete shows em dez dias. O show, a insanidade e a pirotecnia têm roteiro. “É como se fosse um espetáculo teatral , o show segue um roteiro, por isso a gente não gosta de mudar o repertório”, comenta.

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